Amigos de verdade
Amigos de verdade
A nossa casa sempre foi cheia.
Cheia dos amigos do papai, dos amigos dos meus avós, dos amigos do mano, dos meus amigos. Gente de todas as idades, de todos os jeitos, de diferentes fases da vida. Pessoas que entravam pela porta e, muitas vezes, acabavam entrando também para a nossa história.
Na infância, vieram os amigos do ATC, do Clube Dores, do ballet da Tetê, da Ivone Freire, do curso de piano — do qual eu vivia fugindo —, do inglês no Yázigi, os amigos da escola, os amigos dos amigos, os parentes que também eram amigos e tantas outras pessoas que fizeram parte daqueles dias.
Cresci entendendo que amizade não precisava ter idade, profissão, sobrenome ou endereço.
Precisava ter verdade.
E, lá em casa, havia uma regra que o tempo apenas confirmou: amigos de verdade continuam presentes, mesmo quando estão longe.
Eles aparecem nos momentos felizes, mas também permanecem quando a vida não está bonita.
Não precisam competir com você. Não tentam diminuir suas conquistas para aumentar as próprias. Não fingem gostar, não torcem escondido para dar errado e não transformam amizade em disputa.
Amigo de verdade soma.
Deseja o bem.
Torçe por você.
E consegue ficar genuinamente feliz quando alguma coisa boa acontece na sua vida.
Amizade também é respeito.
Respeito pelas coisas de que você gosta e pelas que não gosta. Pelos seus limites. Pela sua história. Pelas suas escolhas. Pela forma como você deseja ser tratado e até pela maneira como gosta de ser chamado.
Parece pequeno, mas não é.
Quem gosta de você presta atenção em quem você é.
Amigos de verdade são aquelas pessoas com quem podemos conversar seriamente sobre a vida e, cinco minutos depois, falar a maior bobagem do mundo.
São pessoas diante das quais podemos chorar, rir até a barriga doer, desabafar, fazer drama, pagar de maluca de circo, brincar sem malícia e continuar sendo exatamente quem somos.
Sem personagem.
Sem competição.
Sem precisar medir cada palavra.
Claro que amizade de verdade também tem seus tropeços.
Eu amo meus amigos, brigo, desbrigo, abraço, beijo, mando longe quando precisa e, ainda assim, quero muito bem.
Porque gostar de alguém não significa concordar com tudo.
Significa existir verdade suficiente para que cada um possa continuar sendo quem é.
Com o passar dos anos, algumas pessoas ficam perto, outras seguem caminhos diferentes. Há amigos que vemos todos os dias e outros que podemos passar meses ou anos sem encontrar.
Mas existe uma diferença enorme entre distância e ausência.
Algumas pessoas estão longe e continuam presentes.
Outras podem estar ao nosso lado e nunca estiveram verdadeiramente conosco.
Talvez seja por isso que eu tenha aprendido a valorizar tanto as amizades sinceras.
A vida passa.
As casas mudam.
As crianças crescem.
As festas acabam.
As fotografias ficam antigas.
Mas certas risadas, conversas, abraços e pessoas permanecem guardados em algum lugar que o tempo não consegue alcançar.
E quando penso naquela casa sempre cheia, percebo que uma das maiores riquezas que recebi foi justamente essa:
aprender que amigos de verdade não precisam tornar a nossa vida perfeita. Eles simplesmente ajudam a torná-la mais bonita, mais leve e muito mais verdadeira.
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