Biabês
Expressões em crises de dor — o Biabês
Existem momentos de dor aguda em que falar deixa de ser uma atividade automática e simples. Não é programado, não é brincadeira e, muito menos, algo que eu escolha fazer. Acontece involuntariamente e, principalmente no início, causava constrangimento.
Eu penso uma palavra e o cérebro entrega outra.
O mais curioso é que eu me escuto. Sei exatamente que a palavra saiu errada. A ideia está correta dentro da minha cabeça, mas, na passagem entre pensamento e fala, alguma coisa se embaralha.
Segundo a explicação que recebi do neurologista, em períodos de dor muito intensa o cérebro está ocupado registrando e tentando lidar com aquela dor, e outras funções podem momentaneamente perder prioridade. No meu caso, isso aparecia especialmente na linguagem. Não significa que eu não soubesse o que queria dizer. Eu sabia. Só não conseguia encontrar, naquele instante, a palavra certa.
Existe também aquilo que batizei de Sistema Nuvem.
A imagem da pessoa, do objeto ou da situação está inteira na minha cabeça. Eu consigo praticamente enxergá-la mentalmente, mas o nome desaparece. É o famoso branco — só que o branco está na palavra.
Isso melhorou muito.
Talvez uma das partes mais difíceis tenha sido justamente aprender a conviver com um processo involuntário enquanto sentia uma dor muito forte e, ao mesmo tempo, tentava manter aquela serenidade externa quase impossível: uma espécie de pose de gueixa ou de Buda. Aliás, prefiro ser comparada à gueixa. Kkk.
E foi nesse território que nasceu o Biabês.
Quando a palavra correta não aparece, eu improviso. O substantivo vira verbo, pronome, adjetivo e o que mais for necessário:
coisa, coisarada, seu coisinha, dona coisinha, aquela coisa, o coisa, está coisado...
E, em situações mais avançadas, surge até a goiabada, que pode significar absolutamente qualquer coisa dependendo do contexto.
É quase uma gramática própria criada pelo cérebro para não interromper completamente a comunicação.
Hoje consigo até rir disso. Quem convive comigo aprende que “seu coisinha” pode perfeitamente ser uma pessoa específica, que “a coisa” pode ser um objeto perfeitamente conhecido e que “está coisado” contém, em determinadas circunstâncias, todas as informações necessárias para a conversa continuar.
O humor não elimina a dor e também não transforma aquilo em algo voluntário. Mas tornou uma experiência angustiante um pouco mais leve.
E assim nasceu mais um idioma no mundo:
o Biabês.
Falado especialmente em períodos de dor, compreendido por contexto e com um vocabulário extraordinariamente econômico.
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