Cheiros e memórias

As pessoas que ficaram nos cheiros
Algumas pessoas ficam na memória por uma frase.
Outras, por uma fotografia.
Algumas ficam numa música.
E há aquelas que permanecem num cheiro.
Quando eu tinha três anos, fiz uma cirurgia de hérnia inguinal. Eu era muito pequena, mas lembro da maca, da enfermeira e de colocarem alguma coisa no meu rosto antes de eu dormir. Tinha um cheiro enjoativo de maçã verde.
Décadas depois, já adulta, fui comprar um bombom de maçã verde. Bastou sentir o gosto e o cheiro para aquela lembrança voltar inteira. Não precisei pensar. Meu corpo reconheceu antes de mim.
Cuspi o bombom.
Foi estranho perceber que uma memória de tantos anos ainda estava ali, guardada em algum lugar que eu nem sabia que existia.
Com a minha avó acontece diferente.
Às vezes entro no mercado e sinto o cheiro do sabonete Alma de Flores.
Na mesma hora lembro dela.
Não é apenas lembrar que ela existiu. É sentir saudade.
Por alguns segundos, aquele cheiro parece abrir uma porta antiga e tudo volta: a presença, a casa, a sensação de infância, o carinho.
Meu pai também ficou em um cheiro.
Um dia acordei sentindo no meu quarto o cheiro do charuto dele. Não sei dizer de onde veio ou se havia algum cheiro parecido no ambiente. Só sei que, naquele instante, pensei nele.
E lembrei.
Há também os cheiros ligados a outros afetos.
O Paulo Henrique, de Brasília, deixou o perfume dele em um vestido meu. E aquele perfume permaneceu no tecido por muito tempo. Durante quase dois anos, quando eu pegava o vestido, ainda conseguia sentir.
Era curioso.
A pessoa já não estava ali, mas alguma coisa dela permanecia.
Talvez seja isso que os cheiros façam conosco.
Eles não pedem autorização para entrar na memória.
Chegam primeiro.
Depois vêm as imagens, as pessoas, os lugares, as histórias e a saudade.
A memória olfativa tem esse poder estranho de diminuir décadas em segundos.
De repente, não importa a idade que temos.
Podemos voltar aos três anos em uma maca de hospital.
Podemos estar novamente perto da nossa avó.
Podemos lembrar do nosso pai.
Podemos encontrar alguém que já não está naquele vestido, mas cujo perfume ainda ficou.
Talvez algumas pessoas nunca desapareçam completamente da nossa vida.
Elas apenas mudem de lugar.
Às vezes ficam numa fotografia.
Às vezes numa música.
E algumas ficam para sempre nos cheiros.

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