Chuva e sombrinhas. Cadê a minha vermelha???

Hoje está chovendo em Floripa.

Nos dias de chuva, eu enxergo tudo meio cinzento. O céu fica cinza, as ruas ficam cinza, a cidade parece vestir uma espécie de filtro. E, no meio disso tudo, eu sempre gostei de ser o pontinho colorido da paisagem.

Um pontinho vermelho.

Igual uma cereja.

Eu tinha uma sombrinha vermelha maravilhosa. Usava nos dias de chuva, levava para o cinema, carregava para todo lado. Era a minha maneira de colocar um pouco de cor no mundo. Só que ela sumiu. Procurei, procurei e nunca mais encontrei.

Sombrinhas, aqui em casa, sempre foram muito importantes.

Se eu pudesse, teria uma de cada cor: amarela, transparente, marrom, preta, verde, vermelha, vinho, bordô… todas as cores possíveis, combinando com as roupas e, principalmente, com as botas de chuva.

Ah, as botas de chuva!

Lembro das antigas, da época em que meu avô e meu pai me levavam e buscavam na escola. Lembro das botas da Melissa, daquele cheiro característico de plástico, um cheiro que, para mim, era maravilhoso e completamente diferente de qualquer outro.

Eram botinhas modernas, coloridas, lindas.

Eu tive uma vermelha de que gostava muito. E também tive uma transparente, cheia de brilhinhos que pareciam pequenas estrelas.

Até hoje sou apaixonada por essas coisas.

Quando tive a Caroll, fiz com ela a mesma coisa: botas e brilhos!

Nos dias de chuva, eu a vestia toda colorida, brilhando como uma estrelinha no meio do dia cinzento. Minha pequena cerejinha andando na chuva.

Mas os dias de chuva também me trazem uma memória muito especial.

Eu tinha uns quinze anos quando minha tia, que morava aqui em Florianópolis, me mandou uma caixa de presentes.

E aquela não era simplesmente uma caixa.

Era uma caixa mágica.

Dentro dela havia um pijama branco com bolinhas vermelhas, de poá. Havia também um estojo enorme, cheio de canetas coloridas e borrachas cheirosas para usar na escola.

Aquilo representava uma mudança de fase. Uma mudança de tempo.

E, claro, havia uma sombrinha.

Minha tia adorava me dar sombrinhas.

Eu já havia ganhado uma dela quando tinha uns sete anos. E lembro perfeitamente da minha primeira reação.

Olhei para a sombrinha, fiz careta, retorci o nariz e pensei:

“O que eu vou fazer com uma sombrinha? Eu queria uma boneca!”

Pois é.

Depois, nos dias de chuva, lá estava eu andando com aquela sombrinha para a escola, feliz da vida.

E talvez tenha começado ali uma coisa que carreguei pela vida inteira e que depois procurei ensinar aos meus filhos:

dia de chuva não é dia ruim.

Todo dia pode ser um dia bom.

Quando Carolina e Gabriel eram pequenos, nós saíamos na chuva. Colocávamos capa de chuva, pegávamos sombrinhas e guarda-chuvas e íamos para a rua.

Pulávamos nas poças d’água.

Brincávamos com a chuva.

Cantávamos.

Dançávamos.

Porque dia de chuva não serve apenas para ficar dentro de casa comendo pipoca e assistindo a um filme — embora isso também seja maravilhoso.

Dia de chuva é dia de sentir o cheiro da terra molhada.

De sentir o cheiro das plantas.

Aquele cheiro de coisa crescendo.

Cheiro de vida.

E, quando a chuva cai em um dia quente, melhor ainda.

É dia de tomar banho de chuva como criança.

De molhar o cabelo.

De rir.

De pular.

De se jogar na lama sem cerimônia.

Talvez seja por isso que eu goste tanto das sombrinhas coloridas.

Elas nunca serviram apenas para me proteger da chuva.

Serviam para me lembrar de que, mesmo quando tudo parece cinza, a gente pode escolher colocar uma cor no caminho.

Nem que seja apenas um pequeno ponto vermelho andando pela cidade.

Igual uma cereja.

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