Como explicar que vovô morreu?
Como explicar que o vovô morreu?
Era frio.
Vovô havia feito uma cirurgia nos olhos e, naquele período, havia parado de tomar aspirina. Resolvemos viajar para visitá-lo.
Fomos de ônibus. A viagem era longa e, como em tantas viagens de família, levávamos praticamente uma pequena casa conosco: a mala cheia de roupas para o frio, água, suco, salgadinhos, a nécessaire com os remédios e o famoso saco de pãezinhos de leite Ninho da padoca para comermos pelo caminho.
E levávamos, principalmente, os corações cheios de saudade.
Quando chegamos, encontramos aquilo que só uma casa de avós sabe oferecer.
A comida da vovó.
As nuvens de docinhos que a bisa comprava.
As tias aparecendo para visitar.
Conversas, movimento, gente entrando e saindo e aquela sensação maravilhosa de estarmos novamente em família.
Vovô estava conosco.
Brincou de futebol no corredor de casa, naquele piso encerado e brilhante que a vovó mantinha impecável. As crianças brincaram com ele e tivemos um final de semana maravilhoso.
No domingo, ele reclamou de uma dor forte na barriga.
Não imaginamos que pudesse ser algo tão grave. Vovô já havia enfrentado diverticulite, três cirurgias seguidas e até uma infecção generalizada. Depois de tudo aquilo, algumas dores faziam parte de sua história e, naquele momento, ninguém poderia imaginar o que aconteceria.
À tarde, ele se deitou.
À noite, era hora de voltarmos para Florianópolis.
Antes de partir, ainda comprei um chinelo para ele. Um chinelo que quase não teve tempo de usar.
Vieram os beijinhos.
Os abraços apertados.
A despedida comum de quem acredita que haverá uma próxima visita.
Entramos no ônibus.
Quando chegamos a Florianópolis, recebemos a notícia: meu pai havia falecido subitamente após um ataque cardíaco.
Naquele dia eu tinha plantão de Mediação Familiar na Vara de Família do Fórum de Florianópolis. Fui até o Fórum apenas para comunicar que não poderia realizar o plantão.
Precisava voltar.
Meu pai havia morrido.
Fizemos novamente aquela viagem, mas dessa vez não havia pãezinhos, brincadeiras ou expectativa.
Viajamos praticamente sem palavras.
No velório, as crianças estavam presentes.
E foi ali que surgiu uma das perguntas mais difíceis que um adulto pode receber de uma criança.
Gabriel olhou para o avô e pediu:
— Tira o vovô dessa cama dura.
Para ele, aquilo ainda não fazia sentido.
Caroll já era maior e compreendia um pouco mais. Chorou e ajudou o padre a conduzir a prece.
Para Gabriel, precisei encontrar palavras que coubessem dentro do universo de uma criança.
Expliquei que o vovô havia morrido e que agora viraria uma estrela no céu.
Não era uma aula sobre morte.
Era uma maneira amorosa de ajudá-lo a compreender uma ausência que ainda não possuía palavras suficientes para explicar.
E então aconteceu uma daquelas cenas que permanecem para sempre dentro da gente.
Gabriel virou-se para a vovó e disse que, daquele momento em diante, ele tomaria conta dela.
Ficamos pasmos.
Uma criança tão pequena, tentando reorganizar o mundo à sua maneira.
Na missa de sétimo dia, outra cena inesquecível.
Caroll cantou para todos dentro da igreja.
Vovô adorava música. Cantava e tocava vários instrumentos. Caroll participava do coral da Escola CEMJ.
Enquanto a neta cantava, pensei que, onde quer que estivesse aquilo que chamamos de alma, certamente estaria feliz ouvindo aquela voz.
Foi assim que meus filhos viveram uma de suas primeiras grandes experiências com a morte.
Sem esconder.
Sem fingir que nada havia acontecido.
Sem impedir o choro.
Cada um compreendeu conforme a própria idade.
Um quis tirar o avô da “cama dura”.
Outro chorou, rezou e cantou.
E nós conversamos.
A morte deixa saudade.
Deixa um espaço que ninguém substitui.
Mas acredito que ela também precisa ser tratada como parte natural da vida e, sobretudo, precisa poder ser sentida.
Crianças também sentem ausência.
Também percebem quando alguém desaparece da rotina.
Também precisam perguntar.
Chorar.
Lembrar.
Falar.
E talvez não exista uma frase perfeita para explicar que o vovô morreu.
Existem palavras possíveis para cada idade.
Existem abraços.
Existem histórias.
Existe a música que alguém cantava.
Existe o chinelo que quase não foi usado.
Existe um corredor de piso brilhante onde um avô jogou futebol com os netos poucos dias antes de partir.
E existem aquelas pessoas que, mesmo depois de morrerem, continuam aparecendo em nossas lembranças.
Para uma criança, talvez possam virar estrelas.
Para os adultos, podem ganhar outros nomes.
Eu chamo de saudade com memória.
Porque a morte encerra uma vida.
Mas não apaga uma história.
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