Dançar: corpo e alma !
O poder do som e da dança
Nossos ancestrais dançavam.
Podemos perceber isso nas culturas grega, italiana, alemã, africana, indígena e em tantas outras espalhadas pelo mundo. Antes mesmo de muitas formas de escrita, o ser humano já se comunicava pelo corpo, pelo ritmo, pelos sons e pelos gestos.
Música, arte, dança e literatura ultrapassam fronteiras e línguas. São formas de comunicação em sentido amplo: alcançam aquilo que nem sempre conseguimos explicar apenas com palavras.
Em muitos povos indígenas, a música, o canto, os instrumentos e os ritmos estão ligados a celebrações, rituais, espiritualidade, contato com a natureza e vida comunitária. Nas religiões, a música também atravessa séculos em liturgias, cânticos, mantras, corais, orações cantadas e diferentes formas de expressão da fé.
No folclore, na cultura, nas festas populares ou na religião, a dança acompanha a humanidade e pode proporcionar pertencimento, expressão, movimento, alegria e bem-estar.
Uma criança pequena, muitas vezes, sorri quando ouve música. Bate palmas, movimenta os pés, balança o corpo, acompanha aquilo que vê com os olhos e desenha linhas imaginárias com as mãos. Aos poucos, movimento, percepção, equilíbrio, ritmo e coordenação vão sendo experimentados.
Desde pequeninos, percebemos o mundo por nossos sentidos. Nem todas as pessoas dispõem dos sentidos da mesma maneira, e justamente por isso o ser humano também aprende a adaptar suas formas de comunicação e percepção.
Quando eu era pequena, dançava no Colégio Santana. Fiz teatro, participei da ginástica rítmica do João Belém e representei a escola, na Concha Acústica, no Festival de Ginástica Rítmica, carregando inclusive a placa da instituição.
Dancei também no Edelweiss, grupo de dança alemã cujo nome vem de uma flor. Passei pelo Ballet da Rose Marrie e pelo Ballet da Tetê, do Maneco. Me apresentei nos Clubes da cidade acompanhada por meus pais e avós, nas Festas da cidade como dia do vizinho, com apresentações em diversos lugares. No Centenário, gostava de assistir às apresentações.
Nas apresentações escolares, existe ensaio, marcação, responsabilidade e aquela preocupação de acertar.
Hoje é diferente.
Na vida adulta, faço aula de dança sem intenção de me apresentar ou competir. Não quero ficar preocupada em decorar perfeitamente uma coreografia. Quero brincar, ouvir o som, acompanhar aquilo que consigo e aproveitar aquele momento.
É o meu momento de queimar calorias, acelerar os batimentos cardíacos, melhorar meu fôlego, movimentar quadril e coluna e fazer com que os ossos desgastados do meu corpo se sintam VIVOS.
Antes da minha cirurgia de coluna ( descomoressão da medula e hérnia de disco, com doença permanente invisível, de dor crônica, sem cura : artrose facetária degenerativa na coluna, cervicobralgia, quadril, braço com osteoartrite e manguito rompido .. eu não conseguia me sentar em uma cadeira de rodas. Muito menos andar normalmente.
Ficava em pé e tentava dar alguns passos contando até trinta. A dor era horrorosa. Não passava com tramadol, Nisura ou adesivo Restiva.
Depois da cirurgia, precisei reaprender coisas que parecem simples para quem nunca perdeu essa possibilidade: levantar, sentar, caminhar e executar movimentos pensando antes em cada gesto.
Ainda havia dor. Não era mais aquela dor aguda de antes, mas dor é dor.
Eu não posso correr, nadar, jogar vôlei, escalar.. .. mas posso dançar, graças à Deus!!!!!
Durante muitos anos fiz academia e também aulas de dança com diversos professores: Andrea Souza e Maicon, João Renato na Beyond; Negão e Bombom, na Twitt, dentro do C.C.; Fidias Pinho, na Racer; Jonas Freire, Léo e Beto, na Keep Fitness; Luana, Fábio, Guadi, Aurora, Melque, Paula e Patrick, na Fernando Scherer; Mauren e Diego, no Clube Dores, entre tantos momentos e lugares que fizeram parte dessa história. Coloquei a Caroll no ballet da Bia Villela, no Jazz da Andrea Nolla , no sapateado do Mateus e da Paty na Bia Villela. Caroll e Gabriel dançavam nas Olimpíadas no Cemj , Festas juninas e apresentações.
Quando eu tinha meu escritório no Centro, fazia dança em uma academia que ficava em um prédio com uma escadaria gigantesca. Havia dias em que eu saía tão cansada que descia a escada quase de bumbum.
Mas descia feliz.
Quando parei de conseguir andar e sentar normalmente, uma das coisas que eu mais queria era justamente dançar.
Queria mexer o corpo.
Queria sentir que aquele corpo ainda era meu.
Tentei dançar em casa e não consegui.
Senti dor.
Senti medo.
Chorei.
Tentei de novo.
Chorei outras vezes.
E continuei tentando.
Até que, devagar, fui conseguindo.
Voltei a fazer aulas.
Quem olha de fora provavelmente não percebe tudo. Em silêncio, até hoje sinto coluna, joelho e tendão. Eu me esforço e continuo ali.
Uso o espelho não apenas para acompanhar os passos. Observo a postura, corrijo minha coluna e também observo a cor dos meus lábios, porque já passei por situações em que precisei parar por sentir que poderia desmaiar.
Em alguns momentos precisei interromper. Em outros, adaptei movimentos.
Faço atividade física com regularidade porque, no meu caso, movimento também significa combater a rigidez e preservar aquilo que meu corpo ainda consegue realizar.
Existem movimentos que não posso fazer.
Um exemplo é determinado exercício abdominal com o corpo totalmente de lado, porque ele sobrecarrega minha coluna e pode provocar fisgadas que chegam à região cervical. Minha professora, excelente e atenta às minhas limitações, substituiu por outra versão, com o tronco apoiado no chão.
E assim eu sigo.
Adaptando.
Aprendendo.
Respeitando limites sem desistir do movimento.
Talvez por isso a dança tenha adquirido para mim um significado ainda maior.
Ela já foi infância, apresentação, escola, coreografia e diversão.
Hoje também é autonomia.
É reabilitação.
É memória corporal.
É liberdade.
É perceber que um corpo que passou por dor, cirurgia, medo e limitações ainda pode ouvir uma música e responder a ela.
Às vezes com um passo grande.
Às vezes com um movimento pequeno.
Não importa.
Ele responde.
Dançar faz bem para a alma e para o corpo.
E eu amo muito dançar.
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