Datas comemorativas e dias especiais

Datas comemorativas!
Só mais um pouquinho na cama quentinha, como um pacotinho de presente embrulhado nas cobertas. Depois, preciso me desembrulhar, fazer minha aula e seguir com as atividades do dia, agradecendo pela vida.
Isso me lembra os dias frios do Sul e tantos meses diferentes ao longo do ano. E, falando em meses, cada um deles tem seus dias especiais.
Se a gente parar para pensar, em cada dia do ano existem pessoas nascendo. E nascer é um milagre. Cada pessoa chega ao mundo com seu primeiro respiro: em dias de sol, de chuva, de tempestade, nublados ou quentes; sob um céu azul ou cinza.
Eu nasci próximo da Páscoa e, durante muitos anos, meu aniversário caía bem pertinho dela. E, por incrível que pareça, tenho na memória muitos domingos de Páscoa chuvosos. Parece até existir uma tradição de São Pedro — ou, quem sabe, Deus chorando e lavando o povo.
Nas Sextas-Feiras Santas, lá em casa, havia ensopado de bacalhau feito pelo meu avô e pela minha avó. Era “ensopado” porque o bacalhau vinha regado com bastante caldo, acompanhado de batatas e temperos.
Para uma criança que não gostava de peixe e ainda precisava passar o dia sem comer derivados de carne, aquilo podia parecer uma verdadeira tortura! Quase um castigo.
Mas aquelas datas nunca eram apenas sobre a comida.
Enquanto estávamos juntos, ouvíamos histórias sobre a data não somente pelo aspecto religioso, mas também pelo histórico. Conversávamos sobre o comércio e a importância do peixe em diferentes períodos, sobre momentos de escassez, sobre símbolos usados para reconhecimento e encontros em épocas de perseguição e sobre as relações entre religião, sociedade e Estado.
Sem perceber, já tínhamos ali pequenas aulas de democracia, civilidade e respeito às crenças — inclusive às pessoas que acreditavam e pensavam de maneira diferente.
Em nossas longas conversas, também aprendíamos sobre o aramaico, o latim, a formação e as transformações das línguas. Falávamos sobre como os calendários foram modificados ao longo da História e como as datas que conhecemos nem sempre correspondem com exatidão aos dias em que determinados acontecimentos realmente ocorreram.
Aprendíamos, ainda, que muitos fatos foram registrados por escrito e compilados muito tempo depois dos acontecimentos que narravam.
Ali tínhamos aula de História, tradição e fé.
Minha avó fazia aniversário um dia depois da data em que celebramos o nascimento de Cristo e dizia, sempre muito alegre:
“Meu aniversário é depois de Cristo!”
E tinha bolo, alegria e comemoração. Na hora do almoço, ao som dos parabéns, tocávamos sua gaita de boca à mesa.
São lembranças aparentemente pequenas, mas imensas dentro da nossa história.
Datas comemorativas, quando celebradas com amor, pertencimento e memória, criam raízes que atravessam gerações.
Amo muito tudo isso.
Até hoje ouço gente grande, já sem fantasia, dizer:
“As crianças cresceram. Para que enfeitar?”
Para quê?
Porque enfeitar a casa, o coração e a vida dá alegria de viver.
Porque algumas tradições permanecem mesmo quando as crianças crescem.
Porque o afeto também precisa de símbolos, cores, cheiros, sabores, músicas e rituais.
E porque existem determinados porquês que não precisamos explicar.
Precisamos apenas sentir.

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