Ensinando responsabilidade sem estresse


Ensinando responsabilidade sem estresse
Sempre tive uma metodologia muito própria para educar. Talvez tenha nascido do instinto materno, talvez da criação que recebi, talvez das leituras e referências que foram se somando ao longo da vida — Maria Montessori, Paulo Freire, Piaget e tantos outros pensamentos sobre infância, aprendizagem, autonomia e desenvolvimento humano.
Mas acredito que, antes de qualquer teoria, reproduzi inconscientemente aquilo que conheci como base: amor, diálogo e participação.
Caroll e Gabriel sempre puderam participar das conversas, fazer perguntas, opinar, interpretar situações e chegar às próprias conclusões. Procurei valorizar a criticidade e a liberdade de conversar sobre praticamente tudo, naturalmente respeitando a idade e o grau de compreensão de cada fase.
Em alguns textos utilizo uma palavra de que gosto muito: educriar.
Porque criar uma criança, para mim, nunca significou simplesmente estabelecer regras. Significou ensinar a viver.
Uma das coisas que procurei ensinar foi justamente a possibilidade de quebrar a rotina com responsabilidade.
Eu tinha receio de que se tornassem adultos excessivamente presos a horários, métodos e planejamentos, daqueles que entram em desorganização emocional quando alguma coisa sai do lugar previsto. A vida muda os planos o tempo inteiro. Existem surpresas maravilhosas e também acontecimentos difíceis. Aprender a lidar com ambos faz parte da formação emocional.
Com as crianças pequenas acontece algo semelhante.
Às vezes elas choram, gritam ou fazem aquilo que chamamos de “birra” porque ainda não possuem vocabulário emocional suficiente para dizer:
“Estou com raiva.”
“Estou frustrado.”
“Estou com saudade.”
“Estou com medo.”
“Estou triste.”
“Eu queria muito aquilo.”
Cabe ao adulto emocionalmente disponível ajudá-las a reconhecer e nomear aquilo que estão sentindo.
Raiva, frustração, amor, perda, saudade, alegria, tristeza, medo.
Tudo pode ser conversado.
É uma espécie de comunicação consciente que vai crescendo junto com a criança.
Talvez por isso eu ache tão bonito perceber que algumas dessas aprendizagens permanecem mesmo quando os filhos crescem.
Às vezes recebo uma ligação dos meus amados dizendo simplesmente:
— Não estou legal.
E não precisamos transformar aquilo imediatamente numa tragédia.
Podemos marcar um passeio na natureza, dar uma volta de carro, tomar um café, inventar alguma pequena surpresa e, principalmente, conversar.
São pequenos pontos de escape sentimental — ou de alma.
Como acontece com um GPS quando erramos o caminho: paramos, observamos onde estamos e fazemos uma reconfiguração da rota.
Conversamos sobre fatos, atitudes, sentimentos e possíveis soluções.
Sem fingir que nada aconteceu, mas também sem transformar um problema em algo maior do que ele realmente é.
Ao estudar psicologia e comportamento de adolescentes, sempre me impressionaram profundamente os casos de jovens que não conseguiram suportar determinadas frustrações. Entre tantos fatores complexos envolvidos no sofrimento psíquico, existem também histórias marcadas por cobranças excessivas, competição permanente e pela ideia de que é obrigatório ser sempre o primeiro, o melhor ou aquele que nunca pode falhar.
Isso merece muita atenção.
Uma criança precisa aprender a vencer, mas também precisa aprender a perder.
Precisa conhecer a alegria de acertar e perceber que um erro não encerra a vida.
Precisa saber que uma nota não determina seu valor.
Que mudar de caminho é permitido.
Que pedir ajuda é permitido.
Que recomeçar é permitido.
Sempre ensinei aos meus filhos que, enquanto existe vida, podemos procurar caminhos, soluções, ajuda e novas possibilidades.
E também acredito que precisamos falar sobre a morte.
Não para assustar crianças, mas para ajudá-las a compreender que ela faz parte da existência. Dependendo da idade, podemos falar sobre lembranças, saudades e sobre aquelas pessoas que continuam conosco através das histórias que deixaram.
Podemos até imaginar que algumas viraram estrelas e que, de algum lugar bonito, continuam brilhando sobre nós.
Defendo há muitos anos que a escola também tenha espaço para conversar, de maneira adequada a cada idade, sobre assuntos da vida real: corpo, sentimentos, atitudes, comportamentos, educação sexual, limites, medo, perdas, morte, pessoas desconhecidas, segurança e tantas outras questões humanas.
O Brasil é imenso e formado por diferentes culturas, crenças, estruturas familiares e realidades sociais.
Existem famílias que conversam sobre tudo. Outras não sabem como abordar determinados assuntos. Algumas possuem restrições culturais ou religiosas; outras simplesmente não tiveram acesso à informação, não encontram tempo ou não sabem por onde começar.
Por isso, família e escola podem se complementar.
Educar, para mim, nunca foi fabricar uma pessoa obediente.
Foi ajudar a formar alguém capaz de pensar.
Alguém que saiba conversar, decidir, reconhecer sentimentos, assumir responsabilidades, mudar de caminho quando necessário e compreender que nem todos os dias seguirão exatamente o planejamento inicial.
Talvez seja isso que eu tenha tentado ensinar aos meus filhos desde pequenos:
responsabilidade sem medo, liberdade sem abandono e diálogo sem tabu.
Porque preparar uma criança para a vida não é ensiná-la a controlar tudo, nem a obedecer sem pensar, sem saber o porquê das coisas. Precisa ter criticidade, curiosidade para perguntar. 
O que mais importa é ensiná-la a continuar inteira quando alguma coisa foge do controle.

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