Histórias e pessoas

Cidades pequenas carregam histórias gigantes

Cidades pequenas carregam histórias gigantes.

Possuem ruas de paralelepípedos, casas marcadas pelos estilos dos imigrantes alemães, italianos, africanos e de tantos outros povos que ajudaram a construir cada lugar. Misturam o barroco, o provençal e tantos outros estilos, culturas e tempos.

Tudo isso fica registrado nos muros antigos, nas fachadas, nas janelas, nos detalhes das casas e até no suado valor do dinheiro guardado nas carteiras das pessoas.

Com o tempo, a tinta desbota.

Descasca.

As paredes envelhecem.

Mas, dentro de cada casinha, continuam existindo vidas.

E histórias de histórias.

Eu morei em Santa Maria.

A Santa Maria do Copacabana, dos clubes, dos não-letais da Rise Marie, das aulas de piano da Dona Ivone, do inglês do Yázigi, do Oásis do Padre Lauro, do Edelweiss, que se apresentava pela cidade toda.

A cidade do famoso Santana, do Fafra, da Federal, do Maneco, do João Belém, do Centenário, do Riachuelo...

Nomes que, para quem vê de fora, talvez sejam apenas nomes.

Para quem viveu, são lugares cheios de gente, sons, cheiros, encontros, juventude e pedaços de vida.

Também morei em Bagé.

A Bagé da Urcamp, do prédio do relógio, da Sete de Setembro, da senhora do bolo misto de mousse, do Restaurante do Arlindo.

E tem gente que mora em Paris.

Em São Paulo.

No Japão.

Cada pessoa carrega o seu mapa.

Eu sou interiorana e carrego dentro de mim verdades.

Tenho uma boca grande e gosto de falar.

Talvez porque cidades assim sejam cheias de gente de verdade, dessas que conversam, observam, contam histórias, conhecem famílias, guardam apelidos, lembranças e acontecimentos que nunca estarão nos livros oficiais de História.

Conheço poucos lugares.

Mas aqueles que conheci construíram lembranças em mim.

Por onde pude passar, fui sempre eu, em todos os sentidos.

Nunca com a intenção de aparecer.

Sempre com a vontade de estar.

Sem precisar permanecer.

Passagens.

E então existe Florianópolis.

Floripa.

Capital.

Ilha da Magia.

Moro aqui.

Respiro aqui.

Trabalhei aqui durante trinta anos.

Tenho filhos manezinhos.

Aqui, muitas vezes, olho para a natureza e penso que Deus pinta como Monet.

A luz muda.

O mar muda.

O céu muda.

As cores se misturam e parecem pinceladas.

Amo muito este lugar.

Mas, pensando em todas as cidades pelas quais passei e em todas as pessoas que encontrei, percebo que talvez o mais importante não seja o tamanho de uma cidade, a quantidade de lugares que conhecemos ou quantos anos permanecemos em algum lugar.

Importa aquilo que deixamos.

Espero, por onde passar, deixar um sorriso.

Uma gargalhada.

E não lágrimas.

Espero deixar uma palavra boa.

Uma besteira engraçada.

Uma lembrança leve.

E levar comigo aqueles olhares reais e sinceros que cabem na alma.

Porque as pessoas não valem pelo quanto vivem.

Não valem pelo número de cidades que conheceram.

Não valem pelo tamanho do lugar onde moram.

As pessoas valem pelo que transmitem.

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