Julgamentos!
Julgamentos
Estava conversando com uma colega sobre a minha profissão e disse a ela que eu poderia ter escolhido ser juíza, mas não quis. Escolhi a advocacia.
Escolhi o in dubio pro reo, o respeito primordial aos direitos individuais e personalíssimos — e viva as cláusulas pétreas! Adoro o princípio da dignidade da pessoa humana, o direito à intimidade, à privacidade, à propriedade e às liberdades individuais.
Sou louca por Direito!
Mas nunca gostei de julgar pessoas.
E, se tivesse escolhido a magistratura, penso que procuraria decidir olhando para as provas, para a fundamentação e também para a realidade humana que existe dentro de cada processo, como no Princípio do Livre Convencimento Motivado e Princípio da Dignidade da Pessoa Humana. Talvez por isso eu tenha me identificado tanto com a mediação: antes de concluir, é preciso escutar.
Na vida cotidiana, porém, fazemos exatamente o contrário.
Saímos à rua e, sem saber absolutamente nada sobre o que o outro está vivendo, começamos a julgar.
Julgamos quem não sorri, quem faz cara feia, quem está antipático, mal vestido...
Mas aquela pessoa pode estar com dor, deprimida, preocupada ou vivendo um luto.
Julgamos a “cara feia”.
Pode ser preocupação com um filho, com dinheiro, com trabalho, com saúde ou simplesmente o esforço de alguém tentando sobreviver a um dia difícil.
Julgamos a roupa.
Não sabemos se aquela era a melhor roupa que a pessoa tinha, se estava atrasada, se estava comoutras na máquina de lavar, se aua casa incendiou, se passou por um acidente, se engordou, emagreceu, se aquela forma de vestir pertence à sua cultura, tradição, gosto ou simplesmente à sua maneira de existir.
Julgamos a mulher escabelada, sem maquiagem ou sem as unhas feitas.
Talvez ela tenha cuidado da casa, dos filhos, do trabalho, dos problemas de todo mundo e não tenha encontrado tempo para si. Nem para o lazer. Nem para rezar. Nem para cantar. Nem para se amar — ou se deixar ser amada.
Julgamos até uma vaga de carro.
E não sabemos se ali existe alguém com muita dor, alguém esperando um idoso, uma criança, uma pessoa doente; alguém com o tempo contado para encontrar quem ama ou alguém carregando uma saudade apertada dentro do peito.
E aí começa.
Existe aquele velho ditado:
“Nunca sangre em um tanque de tubarões.”
Eu penso diferente.
Sangre, sim, se precisar.
A dor faz parte da condição humana.
Os tubarões são os outros — não você.
Aquela pessoa que falou mal de fulano ou beltrano também pode estar descentrada, sangrando por dentro e despejando sua raiva na vida alheia como uma válvula de escape. Talvez, quando o tempo passar, ela mesma perceba que não precisava ter feito aquilo.
Existem comportamentos reativos, gatilhos, repetições e histórias inteiras que desconhecemos.
E nós vemos apenas cinco minutos da vida de alguém e acreditamos que conhecemos o livro todo.
Eu prefiro perguntar.
Prefiro a clareza.
Falo por mim.
Certa vez contei para a Adri, uma das minhas professoras de bike, que cheguei à academia para uma aula das sete da manhã depois de deixar amigos que me visitavam dormindo na minha casa, com a mesa do café posta.
Eu havia saído de casa sentindo uma dor absurda.
Era uma dor daquelas que deixam a tolerância baixíssima. Eu tinha vontade de gritar, de comer as paredes. Não sorri para ninguém, não cantei, estava fechada e provavelmente pareci grosseira, estúpida e antipática.
Mas ninguém que me encontrasse naquele momento conseguiria enxergar a dor.
Continuei fazendo as aulas.
Até que, por volta das nove e meia, na aula do Sandrinho, minha coluna fez:
TRECC!
Destravou.
A dor diminuiu, talvez, uns 85%.
E eu sorri.
Voltei para casa me sentindo gente novamente.
Meus amigos perguntaram, brincando, se eu tinha ido “morrer na academia”.
Expliquei:
— Saí de casa desesperada, com muita dor, e voltei me sentindo gente.
Quem tivesse me encontrado às sete da manhã poderia ter pensado uma coisa sobre mim.
Quem tivesse me encontrado às dez teria pensado outra.
E eu era exatamente a mesma pessoa.
Outro exemplo aconteceu quando meu pai morreu.
Eu fiquei com ódio do mundo e despejei aquele sofrimento em muita gente.
A morte dele foi inesperada. Diferente da partida dos meus avós, que também foram praticamente meus pais. Eles já tinham bastante idade e, de alguma maneira, sabíamos que aquele momento chegaria. Houve tempo para uma preparação afetiva.
Com meu pai, não.
Era dor bruta.
Hoje consigo olhar para trás e compreender aquela reação.
Talvez seja justamente por isso que, atualmente, quando olho para alguém, tento lembrar:
existe um mundo inteiro dentro daquela pessoa que eu não conheço.
Existem dores que não aparecem.
Lutos silenciosos.
Preocupações.
Medos.
Histórias.
Responsabilidades.
Gatilhos.
Sonhos interrompidos.
E há pessoas que, além de carregarem o próprio mundo, ainda carregam o mundo de outras pessoas nas costas.
Por isso, antes de julgar, prefiro perguntar.
Antes de concluir, prefiro compreender.
E, quando não for possível compreender, ainda assim posso respeitar.
Talvez esse seja um dos aprendizados mais bonitos que o Direito, a mediação e a própria vida me ensinaram:
ninguém cabe na sentença apressada que fazemos sobre ele.
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