Maternar
Ter a maternidade dentro da gente
Desde pequena, brincando de bonecas, eu adorava brincar de casinha.
Minha mãe comprou uma casinha de madeira de dois andares. Tínhamos fogão, panelinhas, o Bob e a Barbie. Colocávamos as bonequinhas Moranguinho Baby como bebês e filhinhos. Nas brincadeiras havia o carro do Bob, o carro da Barbie e até aqueles saltos de brinquedo que pareciam sapatos de verdade e eram vendidos separadamente nas lojas como acessórios da Barbie.
Acho que, para algumas de nós, o maternar já mora ali, muito antes de sabermos exatamente o que ele significa.
Meu pai também me ensinou a cuidar do meu mano. Quando brincávamos em casa, eu cuidava dele. Nunca brigava com ele, porque fui ensinada a proteger — e realmente protegia.
Quando meus primos eram pequenos, isso continuou.
O Dudu era cuidado pela alemã porque minha tia trabalhava à tarde. Quando ela gritava com ele, eu saía da minha casa e ia até lá ver o que estava acontecendo e dizer para ela baixar a bola com ele.
A Ale e o Dudu iam comigo para a piscina. Eu os ensinei a me chamar de tia, e não de prima.
Bons tempos!
Hoje faço justamente o contrário: digo para me chamarem de prima, e não de tia. O tempo tem dessas coisas.
A Ale tinha restrição alimentar por causa de alergia, e eu prestava atenção ao que ela podia ou não comer. Já o Dudu era danado. Um dia, na piscina média do Clube Dores, inventou de colocar as boias nas canelas. A cabeça começou a afundar.
Eu me atirei na piscina e arranquei aquelas boias.
Quase me matou de susto!
Com o Guilherme também foi assim. A tia Neida me deixava passear com ele ainda bebê, no carrinho, pelo centro, aos sábados pela manhã. Era uma demonstração enorme de confiança na minha responsabilidade, no meu carinho e no meu cuidado.
Crescemos.
Quando comecei a namorar o Ervin, meu colega que depois também se tornou advogado — namoramos desde o segundo grau, em Santa Maria/RS, e durante os cinco anos da faculdade em Bagé/RS —, sua irmã Karin e o Serginho tiveram a Juliana.
Eu era apaixonada por aquela menina.
Já maiorzinha, a Arize me contou que a própria Juliana havia pedido para que eu fosse a dinda dela.
Querida!
Era uma boneca.
Vim para Floripa fazer Pós graduação pela Escola do Ministério Público e depois pela Univali .
Depois vieram os meus filhos, conheci o
Dal : dentista da clínica CIIPO, pós graduado pelo IPENO pai da Caroll e do Gabriel, já sabia que eu amava crianças, acordamos ter nossos filhos , com tudo do bom e do melhor, ( médicos/ escolas particulares/ atividades extras particulares/ lazer/ tudinho: inclusive amor e o meu tempo !!! Tempo indescritível de acompanhar o primeiro dente caindo, a primeira fralda , o leite materno além do prazo previsto na ANS, as comidinhas naturais de legumes e frutas frescas, sucos, o primeiro chamado, sílaba, música! .. o estudo de métodos para educar/ Piaget/ Freire/ Waldorf/Montessori . O ensinamento dos 5 sentidos, foi reconhecer, estruturar, traduzir sentimentos, olhares, comportamentos! Trabalho diuturno com louvor, além do Fórum das Pós graduações de não ter ninguém da família para deixá-los para realizar plantões de Fórum a não ser a Escola!!! Essa a Dra. Cláudia Lambert deve lembrar: Fiz audiências ( Vara de Família Fórum Capital) levando o bebê no carrinho , dormindo e de terno! Enquanto a Caroll estava na aula! E o cara lá de cima : tudo sabe, tudo vê!
Para mim, crianças são realmente adoráveis e também a minha versão mais rara e verdadeira.
Antes mesmo de engravidar da Caroll, eu já havia me organizado com minha obstetra, Beatriz Kurten. Tomei a vacina da rubéola e respeitei o período recomendado de seis meses antes de começarmos as tentativas.
Quando engravidei, amava minha barriga.
Cantava, acariciava, trabalhava no Fórum, comprava revistas sobre bebês todas as semanas e escolhia roupinhas. Para a mala da maternidade, separei cada conjunto em um saquinho, combinando roupa, fita de cabelo e sapatinho.
Eu queria muito que ela nascesse no dia 13, em homenagem ao meu avô coruja.
Meu avô foi uma das pessoas mais íntegras que conheci.
Não falava de maneira vulgar nem dizia palavrões na nossa frente quando éramos pequenos. Nunca vimos uma briga dele com a minha avó. Nunca a traiu. Levava-nos para restaurantes, para a escola, lia Isaac Asimov para nós quando tínhamos três anos e, aos sete, nos apresentou ao cinema com o filme E.T.
Era extremamente protetor.
Também fazia questão de que tivéssemos acesso a uma biblioteca variada: literatura, História, Psicologia, livros místicos e tantos outros. Sem falar nos livros sobre Física Quântica que havia em casa — e dos quais, naquela idade, não entendíamos nadinha.
O nascimento da Caroll havia sido marcado para o dia 28, porque a Beatriz explicou que aquela seria a data mais próxima possível.
Mas olhem só:
ela nasceu no dia 13.
Exatamente como eu queria.
Foi num domingo ensolarado. Acordei tendo contrações de parto, mas indolores. Cheguei à Clínica Saint Patrick e o plantonista logo chamou a equipe. Ficou surpreso ao perceber que eu estava realmente em trabalho de parto, embora não estivesse sentindo dor nas contrações.
Telefonou para a Beatriz, que foi correndo.
Ainda precisaram esperar um pouquinho porque, chocólatra como sempre fui, eu havia comido chocolate.
Fui para a maternidade praticamente do jeito que estava, esperando a minha boneca nascer.
E ela nasceu linda.
Olhos azuis enormes, boca rosada, bochechinhas coradas.
Um verdadeiro bebê de propaganda da Johnson's.
Depois veio o Gabriel.
E também veio do jeitinho que eu pedi: lindo, com olhos de jabuticaba, comprido, e depois com aquele cabelo todo loiro.
A história de como decidimos que ele viria também é especial.
A Caroll estava na sala de espera para uma cirurgia de ouvido com a Fernanda Maya, na Fergus. Já anestesiada, reclamou que estava demorando muito.
Eu disse:
— A médica já vai vir.
E ela respondeu que aquela demora era para ela ganhar um irmão.
Eu disse que conversaria com o pai dela e que providenciaríamos o mano.
E providenciamos.
O Gabriel nasceu em um dia ensolarado, na Santa Helena, pelas mãos do Rodrigo Baron.
Naquele dia, antes do parto, fui ao salão da Mônica, na Alves de Brito. Fiz o cabelo e as unhas dos pés.
Meu pé estava tão inchado que parecia um pão de queijo de tão redondinho.
O pessoal do salão dizia:
— Pelo amor de Deus, mulher! Não vais ganhar esse bebê aqui!
E eu ria:
— Tem hora marcada!
O Rodrigo Baron havia sugerido o dia 11.
Eu escolhi o dia 10.
E, coincidentemente, o dia 10 era o aniversário do bisavô materno dele.
E assim foram chegando os meus amores.
Amores amados.
E, sim, sempre bastante “helicopterados” por mim.
Porque as atividades extras eram com a mamãe aqui, e não simplesmente delegadas para uma babá.
Dani na natação.
Judô com o Oscar.
Caroll no ballet da Bia Villela, com o Matheus, a Paty, Dona Cecília.
Jazz com Andrea Nolla.
Coral do CEMJ com a tia Taciana.
Teddy Bear com o Fábio.
E tantas outras atividades, idas, vindas, esperas, apresentações, uniformes, bolsas, horários, lanches e memórias.
Talvez seja isso ter a maternidade dentro da gente.
Ela não começa necessariamente no momento em que um filho nasce.
Às vezes ela aparece muito antes.
Na boneca colocada para dormir.
No irmão que aprendemos a proteger.
No primo que tiramos da piscina.
Na criança cuja alimentação observamos.
No bebê que empurramos orgulhosamente em um carrinho.
Na sobrinha que amamos como se já soubéssemos amar maternamente.
Depois, quando os nossos próprios filhos chegam, esse amor ganha nomes, rostos, olhos, cabelos, histórias e uma dimensão que não cabe em nenhuma definição.
Para mim, maternar sempre foi isso:
amor, cuidado, presença e dedicação.
É estar.
É proteger sem impedir que cresçam.
É acompanhar sem viver a vida por eles.
É cuidar muito quando são pequenos e, depois, aprender que os filhos crescem — mas que, em algum lugar dentro da mãe, aquele bebê de olhos enormes ou aquele menino de olhos de jabuticaba continuará existindo para sempre.
A maternidade muda de forma.
O amor, não.
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