Renúncias ou perdas


Renúncias ou perdas
Nem sempre, na vida, se vence ganhando.
Tem gente que quer ganhar tudo, a qualquer custo. A medida desse “ganhar” não interessa, mesmo quando atinge pessoas, mulheres, crianças. O importante é ganhar.
Gente gananciosa, e não ambiciosa.
Porque existe uma diferença enorme entre ambição e ganância.
O ter não é ser. Ou talvez seja a tentativa tardia de parecer ser aquilo que nunca se foi.
O ser não é sobrenome, casa, carro, esposo ou mulher.
O ser é criação.
É biblioteca na infância, coleção de joaninhas, histórias lidas pelos pais, tempo, carinho, brincadeira, canção de roda, Páscoa, Natal, aniversários.
É aprender, ainda criança, a não pegar aquilo que pertence ao amiguinho para não pegar aquilo que pertence aos outros na vida adulta — em todos os sentidos.
É não roubar a mulher do amiguinho.
É não trapacear na bolinha de gude, nem no pão da padaria.
É aprender a brincar com os seus brinquedos para não passar a vida inteira querendo os brinquedos dos outros.
Bem na infância.
Bem na vida adulta.
É entender o sistema e, ainda assim, não entrar no sistema.
É não querer impor uma política baseada na hipocrisia de ouvir e falar dentro ou fóra da casa dos outros sem aparecer,  transformando a vida alheia em um sistema ditatorial, para depois fingir que nunca ouviu, nunca falou, nunca participou de nada — e deixar o outro pagando de maluco.
É criar um circo, arrumar uma palhaça e montar o picadeiro inteiro com pedras para que ela tropece.
E ela cai.
Cai de novo.
E levanta.
Com a boca recheada de batom, fazendo pose de dignidade humana, como personagem de filme da Arlequina — só faltando o bastão para estourar e revidar na cara dos hipócritas.
Mas não.
Porque perder e renunciar, muitas vezes, significa se rasgar ao meio para manter intacta a dignidade alheia.
É abrir mão daquilo que talvez se pudesse tomar, justamente porque se sabe que não é seu.
É recuar quando avançar destruiria alguém.
É silenciar quando falar poderia humilhar.
É perder alguma coisa para não perder aquilo que existe de mais importante dentro da gente.
Nem toda derrota é fracasso.
Nem toda renúncia é fraqueza.
Há perdas que salvam aquilo que somos.
Há vitórias que custam caro demais.
E existem pessoas que jamais compreenderão isso, porque passaram a vida aprendendo a conquistar coisas, mas nunca aprenderam a construir caráter.
Renunciar, quando seria possível ferir, tomar, destruir ou passar por cima, também pode ser uma forma de vitória.
Uma vitória que talvez ninguém veja.
Que não aparece em fotografias, contas bancárias, sobrenomes, carros, casas ou troféus.
Mas aparece quando a pessoa se olha no espelho e ainda consegue reconhecer quem é.
Isso se chama:
berço e virtude.
A imagem da palhaça caindo, levantando e ajeitando o batom é especialmente forte porque conversa muito bem com a ideia central: há gente que confunde vitória com tomar; enquanto outras pessoas preferem perder alguma coisa a perder a própria dignidade , que muitas vezes renunciam por valores de alma, doídos e doloridos, humanos e não mentidos e comprados , maiores que o céu e que o inferno em chamas ... metaforicamente. 

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