Vivências que não podem ser copiadas!
Vivências que não podem ser copiadas
Certa vez ouvi uma senhora muito sábia dizer que somos feitos de histórias.
E somos.
Cada ser humano carrega um conjunto absolutamente particular de acontecimentos, escolhas, encontros, perdas, aprendizados, alegrias, sustos, afetos e recomeços. Podemos ter profissões parecidas, morar nos mesmos lugares, frequentar as mesmas escolas, conhecer as mesmas pessoas e até atravessar situações semelhantes. Ainda assim, ninguém percorre exatamente a trajetória do outro.
Existem vivências que simplesmente não podem ser copiadas.
Já ouvi também aquela conhecida metáfora sobre começarmos a vida como sobreviventes, desde antes do nascimento. Independentemente da imagem utilizada, gosto da ideia de que existir já significa atravessar incontáveis processos de adaptação.
Na minha história, isso começou cedo.
Nasci prematura. Meu pai dizia que eu era do tamanho de uma caixa de leite. Fiquei na incubadora e, naquela época, os protocolos eram diferentes dos atuais. Eu mamava e vomitava, e havia preocupação de que não sobrevivesse.
Sobrevivi.
E logo aquilo passou.
Talvez não houvesse propriamente um “problema”. Talvez fosse apenas um pequeno corpo aprendendo a se adaptar ao desconhecido.
Minha infância, depois disso, foi tranquila. Cresci em uma casa sem grandes brigas, sem vozes ruins dominando os ambientes, dentro de uma estrutura familiar em que pude observar, ouvir, aprender, brincar e construir referências.
As raízes começaram ali.
Anos mais tarde, a vida novamente resolveu fazer as coisas do seu próprio jeito.
Minha filha Caroll, muito amada e desejada , tinha uma data prevista para nascer, mas escolheu chegar antes, no dia do aniversário do vovô, bem como eu queria. As contrações eram indolores e raras, algo que chamou atenção inclusive dos médicos. ( clínica Santa Helena / Beatriz Kurten)Lá estava eu novamente diante da imprevisibilidade da vida: quando pensamos que sabemos como algo acontecerá, a própria existência altera o roteiro.
Depois vieram outros episódios.
Em 2020, minha casa incendiou.
Até hoje não sei explicar exatamente como o fogo começou naquele disjuntor ligado à rede externa. Respirei fumaça. A casa e os bens não tinham seguro. Consegui me salvar, salvar o cachorro e o carro. A Caroll e Gabriel estavam na casa do pai deles. Naquele mesmo dia, em meio ao choque de tudo que estava acontecendo, recebi no Hospital Celso Ramos a informação de que um exame indicaria a possibilidade de uma doença hematológica grave e que eu deveria realizar uma transfusão imediatamente.
Decidi não fazê-la naquele momento e assinei o termo correspondente. Procurei atendimento com hematologista.
O exame estava errado.
Outra vez, em uma viagem para Santa Maria, tive uma vontade inexplicável de retornar antes do previsto. Resolvi voltar. No dia seguinte, uma ponte caiu.
Como chamar essas coisas?
Intuição?
Fé?
Providência?
Acaso?
Hora certa?
Talvez cada pessoa encontre uma palavra diferente. Nem tudo precisa ter uma única explicação para possuir significado.
E assim fui acumulando histórias.
São cinquenta anos de uma trajetória que passou pela infância, adolescência, universidade, maternidade, Direito, Educação, mediação, livros, música, arte, família, doenças, reconstruções e incontáveis aprendizados.
Fui estagiária no Centro de Ciências da Saúde da faculdade.
Fui estagiária no Presídio de Bagé, pela Assistência Judiciária da URCAMP.
Fui professora ACT de História na Escola Nossa Senhora da Conceição.
Fui advogada dativa na área de Família no Fórum de Florianópolis.
Tornei-me Mediadora Familiar.
Fui tutora em Educação a Distância pela Universidade Aberta do Brasil.
Fiz pós-graduação, cursos de extensão, formações diferentes e continuei estudando durante boa parte da vida.
Fui — e continuo sendo — mãe da Caroll e do Gabriel, talvez o papel que atravesse todos os demais e o que eu mais amo.
Também precisei aprender a conviver com uma deficiência física decorrente de condições crônicas e permanentes que atingem coluna, braço e quadril. O corpo impôs limites que eu não escolhi, mas eles também passaram a fazer parte da minha história.
Há outras lembranças das quais guardo orgulho.
Fui aquela menina da faculdade que, segundo o professor Dr. Gasso, obteve a melhor nota regional em uma prova objetiva da OAB.
Fui também a aluna que pediu uma banca de professores para revisar uma prova quando entendeu que havia motivo para isso.
Questionar também faz parte da aprendizagem.
Fiz ballet, dancei no Edelweiss, fiz inglês pouco tempo. Fugi das aulas de piano. Estudei em Escola de Freiras no início da infância. Fui criada pelos meus pais e avós.
Conheci a natureza, animais, carro do vovô, cavalos, gado, bichos, arroz, os morangos da horta, a história da Estrada dos Camponogara que meu avô mandou seus trabalhadores construírem para passagem de crianças para a escola e energia elétrica que ajudou a colocar na Escola e na Fazenda (dos meus avós maternos.)
Fui chamada de Bia desde que nasci pelos meus avós paternos, que só me chamavam assim diuturnamente! Amo ! !!
Criei meu blog. www.saboresesaberesbybia.blogspot.com
Escrevi textos.
Registrei fotografias.
Organizei pedaços da minha vida e dos meus interesses em centenas de pastas no Pinterest.
Registrei documentos em cartório.
Enviei mensagens, textos, e-mails e ideias para incontáveis pessoas ao longo dos anos.
De algum modo, sempre tive necessidade de registrar.
Talvez porque quem cresce cercado por histórias aprende cedo o valor da memória.
Sou filha de uma família em que livros ocupavam espaço de verdade. Havia biblioteca cheia — recheada como pacote de bolacha Trakinas, de todos os tipos, assuntos e tamanhos.
Antes mesmo de compreender completamente determinados assuntos, eu já estava cercada por eles.
Ainda criança, ouvia músicas de diferentes épocas e estilos por influência e educação musical dos meus pais. Tiquinho, Vinicius, música clássica, MPB e tantas outras referências conviviam dentro de casa.
Ouvia adultos conversando sobre política.
Sobre História.
Sobre o mundo.
Ouvi falar de Isaac Asimov ainda muito pequena.
Estudei em escola de freiras.
Conheci cinema, teatro, música e arte com meus pais.
Aprendi sobre bichos, cavalos, campo e natureza na fazenda dos avós e dos tios.
E, principalmente, aprendi sobre raízes.
Porque raízes não servem para nos prender.
Raízes servem para nos dizer de onde viemos enquanto descobrimos para onde queremos ir.
Com o passar do tempo, compreendi que currículo nenhum consegue contar uma pessoa inteira.
Diplomas não contam tudo.
Fotografias não contam tudo.
Documentos não contam tudo.
Postagens não contam tudo.
Nem mesmo as palavras conseguem registrar completamente uma vida.
Porque existe uma parte da nossa história que permanece apenas dentro de nós: aquilo que sentimos quando determinada coisa aconteceu, o cheiro de uma casa, uma conversa ouvida da sala ao lado, uma música tocando, uma estrada, uma decisão tomada em segundos, um abraço, uma perda, uma intuição, um medo vencido.
É por isso que trajetórias não podem ser copiadas.
Pode-se copiar uma roupa.
Uma fotografia.
Uma profissão.
Uma receita.
Uma ideia.
Uma forma de escrever.
Pode-se até tentar reproduzir escolhas.
Mas ninguém consegue copiar as experiências que construíram um ser humano por dentro.
Somos resultado de uma combinação irrepetível de pessoas, épocas, afetos, circunstâncias, decisões e memórias.
Talvez seja exatamente essa a beleza de existir.
Não precisamos disputar histórias.
Não precisamos ser iguais.
Não precisamos viver aquilo que outra pessoa viveu.
Precisamos reconhecer a nossa própria trajetória, cuidar das nossas raízes e compreender o valor daquilo que nos trouxe até aqui.
Porque uma vida verdadeira não é feita apenas do que pode ser mostrado.
É feita, sobretudo, daquilo que foi vivido.
E vivências não podem ser copiadas.
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