Vivos e mortos!

Os mortos e os vivos
Ontem eu estava assistindo a um filme de terror bem imbecil.
Quando eu era pequena, colocávamos Sexta-Feira 13 no videocassete e era aquela correria: gritos, risadas e pipoca para todo lado.
Mais tarde, já com a cabeça de advogada, fui estudar psicopatia, sociopatia e determinados comportamentos humanos. E há algo que sempre me pareceu curioso: existem pessoas que têm um medo enorme dos mortos, mas quase nenhum medo daquilo que pessoas vivas são capazes de fazer.
Tem gente que teme fantasmas, assombrações e histórias de terror, mas considera quase normal invadir limites, importunar, observar excessivamente a vida alheia, danificar o que pertence ao outro, constranger ou permanecer constantemente em torno da casa e da rotina de alguém.
E então eu pergunto:
Onde você está?
Você está na frente da casa de alguém?
Está importunando alguém?
Está mexendo naquilo que não lhe pertence?
Está tentando interferir na vida de outra pessoa?
Ou está vivendo a sua própria vida?
Eu sei onde estou.
Estou na minha casa, estudando, trabalhando, escrevendo, cuidando das minhas coisas e seguindo a minha vida.
E acredito que essa deveria ser uma regra bastante simples de convivência: cada pessoa viver a sua vida sem transformar a existência do outro em objeto de curiosidade, controle ou perseguição.
Todos nós temos os nossos vivos e os nossos mortos.
Temos pessoas que amamos e que continuam aqui. Pais, mães, filhos, irmãos, amigos.
E temos aqueles que já partiram e cuja memória carregamos conosco.
Conheço pessoas que perderam pais. Outras perderam irmãos. Algumas perderam filhos.
E às vezes penso:
Será que aqueles que já morreram teriam orgulho da maneira como estamos vivendo?
Porque honrar quem morreu também é uma forma de respeitar quem está vivo.
Não basta colocar flores em túmulos, publicar homenagens ou dizer que sente saudade.
Honrar alguém também aparece no comportamento.
Na maneira como tratamos os outros.
No respeito pela casa alheia.
Pela família alheia.
Pelo corpo alheio.
Pela privacidade.
Pela liberdade.
Pela dignidade.
Eu não acredito em justiça retributiva como forma de vida. Não vivo esperando vingança e não quero desperdiçar minha existência alimentando ódio.
Quando alguém insiste em provocar, incomodar ou chamar atenção de maneira negativa, prefiro retirar essa pessoa da minha vida.
Mas também acredito, pela minha fé, que nossos atos deixam consequências.
Alguns chamam isso de lei do retorno.
Outros chamam de consciência.
Outros chamam de justiça.
Eu chamo também de responsabilidade.
O homem que desrespeita uma mulher deveria lembrar que talvez exista uma mulher que ele ame profundamente — uma filha, uma mãe, uma irmã — e que certamente desejaria que ela fosse tratada com dignidade.
A pessoa que produz maldade frequentemente acaba vivendo dentro do próprio ambiente que construiu: pequenos conflitos, mesquinharias, desconfianças e uma existência permanentemente ocupada com a vida dos outros.
Talvez seja essa uma das formas mais silenciosas de retorno.
Enquanto isso, quem aprende a cuidar da própria vida encontra espaço para estudar, trabalhar, amar, criar, viajar, escrever, ensinar, aprender e simplesmente viver.
Por isso gostaria que vivos e mortos fossem honrados.
Não apenas com palavras.
Mas por meio dos nossos comportamentos, dos nossos pensamentos, das nossas escolhas, das nossas vidas próprias e, principalmente, do respeito.
Porque os mortos permanecem em nossa memória.
E os vivos merecem paz.

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