Mães
Mãe com dom: o primeiro GPS afetivo de nossas vidas
Por Bia Camponogara
Mãe com dom é GPS, agenda, conselheira, professora, motorista, enfermeira, cozinheira, cabeleireira, artista, malabarista, psicóloga, astróloga, astrônomo, matemática, bióloga, enfermeira, cantora, atriz, recreadora, contadora de histórias, pedagoga, nas conversas cotidianas e, muitas vezes, mãe helicóptero!
É aquela que acorda junto, acompanha o mal-estar e o bem-estar, a qualquer horário, com disponibilidade de universidade: exclusiva e de plantão, conhece os horários, os compromissos, os medos, as alergias, vê através dos olhos, conhece as alegrias e os sonhos dos filhos.
Mas será que basta amar para saber exercer a maternidade?
Ser mãe exige muito mais do que amor. Exige responsabilidade, dedicação, disponibilidade, estrutura emocional, condições materiais, tempo e organização logística.
Filhos não são projetos pessoais destinados a realizar os desejos dos pais. São seres humanos, com personalidade, sentimentos, necessidades, direitos e autonomia progressiva.
Da gestação à primeira infância
A maternidade começa com expectativas, preparativos e responsabilidades.
Depois chegam as noites mal dormidas, as mamadas, as fraldas, as febres, as consultas pediátricas, as vacinas, os primeiros passos e as primeiras palavras.
A mãe aprende a reconhecer choros, expressões e necessidades.
Aprende também que o cuidado não pode depender exclusivamente da disposição do momento.
Um bebê não espera que a mãe termine seus compromissos para sentir fome, dor ou desconforto e também a única forma que conhece para se expressar é o choro, é a birra, pois tem ausência de cognição sobre o que sente e para isso precisa de uma mãe que ensine, reconheça, explique.
É preciso disponibilidade real, uma rede de apoio e condições para assegurar seu desenvolvimento. Tudo é dedicação: O quarto, objetos sem risco para a idade, ao alcance da criança, cores, tecidos, produtos antialérgico, alimentação saudável..
Espeto que os meus lembrem das beuncadeiras pera vanho : Descer a escada de bumbum cantando Xuxa, a lambida do gato, final de tarde chocilate quente , desaniversários , todas as atividades extras, tricas de fralda, primeiro dente caindo, fada do dente, primeiro tudo na infância , muito bem visto e acompanhados! Isso porquê na adolescência não fiscalizamos namoro, mas advertimos para usarem preservativos e ensi namos educação social, parental, sexual. Nortes sociais e culturais.
A infância: o GPS entra em funcionamento
Chegam as mochilas, os uniformes, as lancheiras com as macas, ovinhos, pães integrais, bolo de chocolate , as tarefas em casa, as atividades extras, as reuniões escolares, os trabalhos, os aniversários, o dia do pet benzido na escola, as Olimpíadas, os amigos e as descobertas.
A mãe acompanha, ensina, estabelece limites, explica consequências e incentiva a independência.
Não basta matricular na escola. É necessário participar da educação.
Não basta oferecer brinquedos. É necessário oferecer convivência.
Não basta exigir respeito. É necessário ensinar pelo exemplo.
A criança precisa aprender a pensar, escolher, errar, reparar seus erros e compreender que outras pessoas também possuem sentimentos e direitos. Aprender criticidade! Bem lindo o CD de Toquinho e convidados : Os direitos das crianças!
A adolescência: a mãe helicóptero precisa ajustar a altitude
A adolescência traz questionamentos, transformações, amizades, paixões e conflitos.
É quando muitos pais confundem discordância com desobediência e autonomia com rebeldia.
A mãe com dom compreende que educar não significa produzir uma cópia de si mesma.
Ela orienta, conversa, sem violência e
estabelece limites proporcionais e reconhece que os filhos precisam desenvolver identidade própria. Quando a estrutura é bem formada, são criados laços maravilhosos de conversas na madrugada, sobre namoros, vida, vivências, troca de histórias e contos de experiências, sentimentos , ações de gerações diferentes.A mãe helicóptero pode continuar observando os caminhos, mas não deve impedir todos os voos.
Proteger não é aprisionar. Orientar não é controlar. Amar não é possuir.
As mães leite NAN: filhos não vêm prontos da prateleira
Há uma expressão que utilizo como crítica a determinado comportamento parental: mãe leite NAN.
É uma metáfora da mãe que gostaria de encontrar tudo pronto na prateleira: o filho ideal, obediente, bem-comportado, com o futuro planejado e disposto a corresponder integralmente às expectativas maternas.
Quer escolher os amigos, a profissão, os relacionamentos, as opiniões e até as reações emocionais dos filhos.
Quando a criança apresenta uma birra, questiona uma ordem ou manifesta uma vontade diferente, surge a tentativa de transformar todo conflito em problema psicológico.
O psicólogo passa a ser procurado não necessariamente para compreender a criança, mas para tentar fazê-la corresponder ao comportamento desejado pelos adultos.
Em determinadas situações, pretende-se até recorrer ao psiquiatra como se a medicina pudesse produzir obediência.
Isso exige uma distinção fundamental: psicologia e psiquiatria são áreas essenciais de cuidado à saúde mental, não instrumentos de controle parental.
Crianças e adolescentes podem precisar de acompanhamento especializado, inclusive diante de alterações comportamentais. Mas discordar dos pais, manifestar frustrações e desenvolver opiniões próprias não constitui, por si só, doença e muitas vezes é na sua maioria é o novo chegando, é o desconhecido, éo aprendizado que precisa acontecer, com um adulto que saiba reconhecer o comportamento de curiosidade, de frustração, de medi, de angústia, de reconhecimento, decoerda, de saudade, de tudo aquilo que é novo.
Antes de perguntar o que há de errado com o filho, talvez os adultos devessem perguntar:
Estamos oferecendo escuta?
Estamos respeitando sua etapa de desenvolvimento?
Estamos ensinando ou apenas exigindo?
Estamos educando uma pessoa ou tentando realizar nossas próprias projeções?
Filhos não são extensões dos pais.
Ter filhos por amor: e a responsabilidade?
Costuma-se ouvir: "Quero ter um filho porque tenho muito amor para dar."
Mas será que essa justificativa é suficiente?
O desejo de ter alguém para amar pode partir de uma necessidade pessoal. Quando não vem acompanhado da disposição de reconhecer e atender às necessidades de outra pessoa, corre o risco de se transformar em egoísmo estrutural.
Uma criança não nasce para preencher vazios emocionais, salvar casamentos, ou do amor que os adultos têm, nem para proporcionar companhia permanente ou concretizar sonhos frustrados.
Nasce como sujeito de direitos.
Precisa de alimentação, moradia, educação, saúde, segurança, afeto, convivência, tempo e oportunidades de desenvolvimento.
Precisa também de adultos emocionalmente responsáveis, capazes de reconhecer seus próprios limites e buscar apoio quando necessário, com discernimento, capacitação e disponibilidade!As condições financeiras importam! O essencial é assumir seriamente as necessidades materiais da criança e organizar, dentro das possibilidades familiares, os recursos e os cuidados necessários.
Amor sem responsabilidade não basta. E responsabilidade sem respeito à individualidade também não.
Mães e adultos precisam abdicar de certas coisas . A criança vem em primeiro lugar sempre, por ser incapaz, indefesa. Precisa de ambientes próprios, seguros, cuidados!
Os filhos crescem, mas a maternidade permanece
Chegam a universidade, o trabalho, os relacionamentos e as escolhas adultas.
A mãe deixa de decidir os caminhos e passa a acompanhar as decisões, opinando sempre sem ser narcisista ou manipuladora, nem chantagista. O livre é livre com escuta e diálogo.
Continua sendo referência, companhia, conselheira e, quando solicitada, aquele GPS afetivo que conhece tantos caminhos percorridos.
Mas precisa compreender que a autonomia dos filhos não representa rejeição. É caminho certo para a evolução consciente .
O filho adulto não deve obediência irrestrita às vontades maternas. O vínculo saudável se constrói com respeito, reciprocidade, diálogo e liberdade.
A maternidade amadurece quando o cuidado deixa espaço para a independência.
Ser mãe é padecer no paraíso?
O escritor brasileiro Coelho Neto, em seu soneto Ser Mãe, escreveu o célebre verso:
"Ser mãe é padecer num paraíso!" Veio também arraigado em Drumond e Quintana , a famosa frase supracitada. Parecendo escultura de Aleijadinho, dando uma pincelada de imaginação barroca .
É uma imagem poética que reúne as alegrias, as preocupações e os sacrifícios felizes da maternidade.
Entretanto, a dedicação materna não deve ser confundida com a obrigação de suportar tudo, abandonar a própria identidade ou viver permanentemente em sofrimento.
O maternar deve ser leve, momento e tempo para sempre de aprendizado. Você ensina, você aprende!
Mães também são pessoas.
Precisam de saúde, descanso, reconhecimento, afeto e projetos próprios.
No momento que mulheres decidem ser mães, precisam da consciência que a criança vem em primeiro lugar semore e isso é amor e não fardo! É dedicação, respeito, responsabilidade!
O anjo que Deus enviou à Terra
Existe uma narrativa sobre a maternidade que sempre me encantou.
Conta-se que, antes de nascer, uma criança conversou com Deus, preocupada com sua chegada ao mundo.
Deus lhe explicou que, na Terra, haveria alguém para cuidar dela, protegê-la, ensinar seus primeiros passos, orientar seus caminhos, consolar suas tristezas e celebrar suas alegrias.
Essa pessoa seria seu anjo na Terra.
A criança quis saber como deveria chamá-lo.
E Deus respondeu que o nome desse anjo seria Mãe.
Essa narrativa, conhecida em diferentes versões e de autoria não confirmada, traduz uma imagem afetiva da maternidade lindamente reproduzida no cuidado.
Afinal, o que é uma mãe com dom?
Não é aquela que exige filhos perfeitos.
Não é aquela que pretende controlar todas as escolhas.
Não é aquela que transforma os filhos em instrumentos de realização pessoal.
É aquela que compreende que educar significa preparar alguém para viver com autonomia, responsabilidade, dignidade e respeito pelos outros.
É oferecer raízes suficientemente fortes para sustentar a vida e asas suficientemente livres para permitir os próprios voos.
Porque a maior realização de uma mãe não é ter filhos que façam tudo o que ela deseja, mas contribuir para formar seres humanos capazes de pensar, decidir, amar e viver suas próprias histórias.
Bia Camponogara
Sabores e Saberes by Bia
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