Quem cuida de quem cuida?
Quem cuida de quem cuida?
Há uma pergunta que sempre aparece quando alguém adoece, envelhece ou, por alguma razão, deixa de conseguir fazer tudo o que fazia antes: onde estão os amigos? Onde está a família? Onde estão os amores?
É uma pergunta necessária.
Mas existe outra que talvez devesse ser feita muito antes:
E quando estávamos nos matando de trabalhar, por que ninguém via?
Antes da doença, antes da limitação, antes da cirurgia, antes do corpo dizer “agora não”, havia uma pessoa fazendo. Trabalhando. Cuidando. Resolvendo. Levando. Buscando. Criando filhos. Administrando horários e responsabilidades. Tentando conciliar aquilo que, muitas vezes, simplesmente não cabia nas mesmas vinte e quatro horas.
Quando Caroll e Gabriel eram pequenos, houve ocasiões em que precisei levá-los comigo para audiências porque eu não tinha com quem deixá-los. Não era uma cena planejada.( Dra Cláudia Lambert da Vara de Família e DR. SAULO viram. Meus clientes também é a Carill e Biel se comportaram muito bem!!) ( Curso de Mediação Familiar levei a Caroll para uma palestra) Era a vida acontecendo junto com a profissão.
No cotidiano, quem buscava meus filhos na escola éramos eu e o pai deles. Quando meus pais estavam de férias conosco, meus pais ajudavam. Era esse o núcleo de cuidado.
E talvez por ter vivido isso eu saiba que cuidado não é uma palavra bonita para colocar em uma homenagem. Cuidado é presença.
É estar.
É fazer.
É reorganizar a própria vida porque alguém precisa de você.
Aprendi isso também olhando para trás.
Quando meus avós envelheceram e passaram a precisar de nós, quem cuidou deles ( arrumar cama/ fraldas/ comidinha batidinha nonliquidificador/ passeio/ mãos dadas/ beijos e abraços todos os dias) fomos nós: meus pais, meu irmão e eu. A velhice deles não foi uma ideia abstrata sobre envelhecimento. Foi parte da nossa vida familiar.
Talvez por isso eu pense tanto sobre quem cuida de quem cuida.
Existe uma reflexão atribuída ao Padre Fábio de Melo que nos provoca a pensar sobre o momento em que deixamos de ser “úteis”: quando já não conseguimos fazer tudo, quem permanece? Temos amigos? Família? Amores?
É uma pergunta dura.
Mas eu acrescentaria outra:
E enquanto éramos úteis demais, quem percebeu?
Quem percebeu a pessoa que trabalhava, cuidava dos filhos, cumpria compromissos, resolvia problemas e continuava?
Quem perguntou se ela estava cansada?
Quem enxergou o esforço antes de enxergar a limitação?
Hoje compreendo ainda mais isso porque conheço também o outro lado. Conheço a inflamação, a dor, os problemas de coluna, a cirurgia e aquilo que acontece quando o corpo impõe limites que a vontade não escolheu.
Existe uma enorme diferença entre não querer fazer e não conseguir fazer.
E talvez seja justamente quando alguém não consegue mais fazer tudo que descobrimos a natureza de alguns vínculos.
Amor não deveria depender de produtividade.
Família não deveria existir somente enquanto alguém consegue resolver tudo.
Amizade não deveria ser uma relação de utilidade.
Porque uma pessoa continua sendo uma pessoa quando trabalha muito e ninguém percebe.
Continua sendo uma pessoa quando precisa levar os filhos para uma audiência porque não tem com quem deixá-los.
Continua sendo uma pessoa quando cuida dos pais ou dos avós.
E continua tendo exatamente o mesmo valor quando chega o dia em que é ela quem precisa ser cuidada.
Talvez a pergunta não seja apenas quem ficará conosco quando não pudermos mais fazer.
Talvez devêssemos aprender a perguntar, muito antes:
quem está cuidando de quem sempre cuidou de todo mundo?
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