Relógio
RELÓGIO
Por Bia Camponogara/ Cristiane Camponogara de Mello
Tic-tac!
A gente vive muito rápido.
O tempo passa, os segundos voam, os dias correm e os anos parecem escapar pelas frestas das nossas mãos.
Até chegarmos aos 18 anos, parece uma eternidade!
É como abrir uma janela e observar, num dia, a chuva caindo; no outro, o sol forte iluminando tudo. Depois, a lua, as estrelas, as estações que chegam e partem.
E, de repente, percebemos que os ciclos vão se fechando, recomeçando, repetindo-se.
Tic-tac!
Depois dos 18 anos, parece que entramos numa descida de skate, ladeira abaixo, sem freios!
Interessante, não?
Aos 20 anos, imaginamos o corpo funcionando a mil! Metabolismo acelerado, cabelos fortes, na cor natural, pele radiante, disposição para atravessar noites e conquistar o mundo.
Mas espera um pouquinho!
Tic-tac!
Nem todo mundo, aos 20 anos, está a mil.
Existem pessoas com deficiência, jovens enfrentando a artrose, o câncer, doenças crônicas, limitações físicas e tantas outras batalhas que não aparecem nas fotografias.
A biologia não distribui as mesmas condições para todos. Tampouco a vida oferece um relógio com funcionamento idêntico a cada ser humano.
Enquanto alguns correm, outros precisam aprender a caminhar novamente.
E todos estão vivendo o seu tempo.
Tic-tac!
Na juventude, frequentemente acreditamos que sabemos tudo sobre o mundo.
Que ingenuidade!
Temos tanto, mas tanto a aprender!
E, enquanto isso, o velhinho da família conta histórias de outras histórias. Histórias de um tempo que não vivemos, de pessoas que não conhecemos, de lugares que mudaram e de costumes que desapareceram.
Ele carrega um mundo inteiro dentro de si.
Viveu épocas que nós não vivemos. Conheceu outras escolas, outras músicas, outras formas de comunicação, outras promessas sobre o futuro.
Sonhou com o Brasil do futuro, ouviu discursos sobre a educação e sobre a juventude como esperança da nação.
Depois vieram outras gerações.
A Geração Coca-Cola, cantada pelo Legião Urbana, questionando o mundo que havia recebido.
E quantas gerações já passaram desde então?
Tic-tac!
Até hoje, na política, muitas polêmicas são as mesmas. As promessas também. As discussões parecem atravessar décadas, mudando os personagens, os partidos, os meios de comunicação e os palanques.
Mudam os relógios, mas determinados discursos continuam marcando as mesmas horas!
E o tempo?
Ah, o tempo não espera ninguém!
Tic-tac!
O relógio passa para todo mundo.
Com a modernidade, chegar aos 50, 60, 70 ou 80 anos pode representar algo muito diferente do que representava para nossos avós.
Metaforicamente, somos relógios analógicos e digitais convivendo no mesmo mundo.
Uns com ponteiros, outros com números luminosos. Alguns restaurados, outros com peças substituídas, outros conservando suas marcas originais.
Hoje existem cirurgias plásticas, tratamentos estéticos, tecnologias e procedimentos capazes de modificar a aparência.
Podemos disfarçar rugas, pintar cabelos, corrigir imperfeições e até aparentar uma idade muito diferente daquela registrada nos documentos.
Mas e o que existe por dentro?
O que acontece com os órgãos, os ossos, as articulações, as células e tudo aquilo que não conseguimos enxergar diante do espelho?
Tic-tac!
Confesso: não gosto dessa parte da biologia!
Não gosto de pensar que o corpo envelhece, que determinadas funções diminuem, que algumas peças não podem ser simplesmente trocadas como as de um relógio.
Afinal, a nossa vontade de viver nem sempre acompanha as limitações impostas pelo organismo.
Podemos continuar com sonhos de juventude, curiosidade de criança, entusiasmo de adolescente e uma infinidade de projetos.
Mas o corpo tem seu próprio calendário.
E nem sempre pede nossa autorização!
Tic-tac!
O relógio continua.
E, bem da verdade, queremos que seja eterno enquanto dure.
Aliás, queremos mais!
Queremos que dure para sempre!
Queremos mais aniversários, mais abraços, mais encontros, mais conversas, mais viagens, mais histórias para contar.
Queremos assistir às novas gerações crescendo, descobrir o que ainda será inventado, conhecer lugares que nunca visitamos e realizar sonhos que permanecem guardados.
Porque a alma é gigante!
E o corpo não comporta tamanha grandeza em tão pouco tempo.
Que coisa extraordinária é essa vontade de continuar vivendo, aprendendo, amando e descobrindo!
Tic-tac!
Um dia, inevitavelmente, a pilha termina ou a luz se apaga.
Não sabemos quando. Não sabemos como.
E talvez seja justamente por isso que o tempo seja tão precioso.
Espero que todos os relógios tenham a oportunidade de funcionar em suas melhores versões.
Que cada pessoa possa alcançar seus ponteiros futuros com dignidade, afeto, conhecimento, liberdade e histórias que tenham valido a pena.
Que não precisemos ser relógios perfeitos, mas que possamos ser relógios verdadeiros.
Com nossas marcas, nossos consertos, nossas pausas, nossos atrasos e nossas conquistas.
E, quando os ponteiros finalmente pararem, que permaneçam as lembranças, os ensinamentos, os gestos de amor e tudo aquilo que fizemos existir.
Porque outros relógios continuarão funcionando.
Outras crianças esperarão ansiosamente pelos 18 anos. Outros jovens acreditarão que sabem tudo. Outros velhinhos contarão histórias de histórias.
E assim a vida seguirá, entre gerações, memórias e novos começos.
Tic-tac... Tic-tac...
O tempo passa. Mas aquilo que fazemos com ele pode permanecer muito além de nós.
Sabores e Saberes by Bia
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